Silêncio profundo. Ao redor, cabeças baixas e concentradas. À minha frente, sua mesa bagunçada. Meus olhos atentos. Lápis na boca, de propósito ou não. Dois metros e algumas circunstâncias nos separam. Sua cabeça, baixa como as demais, se ergue. Nossos olhares se cruzam. Sorrio mas você parece não entender, e me olha como se tentasse fazê-lo. Não sou clara o bastante, mas você é esperto. Ajeito o cabelo e volto os olhos ao papel, feito os demais. Tento disfarçar, sem sucesso. Contra minha vontade, meus olhos procuram os seus, que já procuravam os meus antes. Devoro-te, mas não decifra-me. Sorrimos de novo e sua cabeça se inclina para a direita como quem pergunta algo que não respondo. Você não percebe? Cruzo as pernas, sem esperança, mas sem pesar. Somos eternos porque você não me concretiza; se o fizesse, talvez nos perdêssemos. Jamais saberemos. Você volta a cuidar de seus papéis; eu, dos meus. Com o lápis que segurava na boca, escrevo seu nome na prova, depois o meu. Talvez, se eu for a última a sair da sala... Bem, nunca saberemos. É melhor ir agora. Boa noite, adeus.
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
sábado, 23 de novembro de 2013
As músicas da minha vida
Bom dia.
São quase seis da manhã agora e eu vim aqui escrever este post porque não consigo dormir. Aliás, este post não é inédito; lembro de tê-lo feito há alguns anos, num blog que já não existe mais, e a ideia veio de uma querida amiga com da qual a vida me afastou sem que eu soubesse mais notícias: Josy. Saudades, Josy. Volte.
O título do post resume tudo. Vou falar das músicas que entitulo "da minha vida" pelo fato de me tocarem profundamente (ó o innuendo) por motivos que tentarei explicar e porque acho que a galera não pode passar por essa vida sem ouvi-las. Para me poupar de ter que elencar em ordem de preferência, vou preservar a ordem alfabética. Vem, gente.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Vou comprar cigarro
"Eu te segurei forte contra mim
Você escorregou pelos meus braços
Você prometeu que voltaria para mim
E eu acreditei"
Não sei se foi mesmo. Talvez tenha ido a outro lugar, ou a
lugar algum, mas o que sei decerto é que não voltou. Um “já volto” prosaico
saiu de sua boca antes de sair por aquela porta e assassinar um pedaço de mim,
por bem ou por mal, por querer ou não. Morreu. Ao contrário de você.
Ou será que você morreu? Não sei. Talvez tenha sido
atropelado no cruzamento ali da esquina, ou então se perdeu do caminho de casa
e caiu na areia movediça lá onde Judas perdeu as botas. Quando eu era criança,
imaginava que, quando alguém caía na areia movediça, ia parar em outro mundo.
Talvez isso tenha acontecido contigo: foi parar em outro mundo; talvez aquele mundo
em que existíamos nós dois e nada mais, lembra? Aquele mundo em que éramos “felizes”,
com aspas não tão literais quanto possam parecer. Acho que nosso ideal de
felicidade era romântico demais.
Mas você disse que ia comprar cigarros. Sentado à mesa do
café, lendo meu jornal com óculos que me pesam o cenho, fumando o mesmo cigarro
que você costumava fumar quando ainda existia nesta casa que já não é mais um lar, eu espero que você
volte com qualquer desculpa esfarrapada
— No bar do Zé tinha acabado, precisei ir buscar lá no outro
lado do universo, por isso demorei.
e que eu sorria um sorriso de canto e procure alguma verdade
em seus olhos; e que eu tente e consiga dar conta do que perdemos durante a sua
viagem; e que eu não desperdice mais nenhuma manhã cinzenta de domingo escrevendo
linhas tortas sobre a sua ausência.
Talvez agora eu entenda melhor as famílias das vítimas da
ditadura. Talvez a mão da Morte seja mais cortês do que a da Dúvida na hora de
tocar-me o ombro amigavelmente.
Rebobinar
Ver, viver e ter tudo de novo e de trás pra frente.
O porta-retratos caído, partido, estilhaçado sobre o chão.
Os rostos divididos por uma fissura no papel. Até que a celulose se refaz e a
fissura se desfaz. Aos poucos, os fragmentos de vidro fino se aproximam e se
encontram, também apagando qualquer vestígio de imperfeição que pudesse ficar para
trás. A madeira encontra suas arestas e os vértices se unem, enquadrando a
figura sob o vidro translúcido. Num movimento antigravitacional, o corpo desliza
pelo vento e baila em direção à lisa superfície da penteadeira.
Então observo com olhos cansados a imagem de nós dois, e
assim o faço pelo simples fazer, ou talvez para me lembrar de que gosto de me
lembrar de você, embora essa lembrança me faça querer me afastar. Controverso,
incerto, inseguro, inexplicável e encerrado.
Acabou. O que restam são estilhaços, e tudo o que se pode
fazer é rebobinar e admirar por um instante, que deve ser breve, e depois
varrer os cacos para debaixo do tapete, guardar os pedaços do porta-retratos e
manter a fotografia guardada onde ninguém saiba, pois ela é a parte mais
importante dessa cena (que se repete e se repete), até que um dia ela se
desgaste e vá para aquela caixinha velha, onde ficam todas as outras fotos de
menor valor.
Mas por enquanto deixe-a na segunda gaveta, por favor.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Providência divina
Sei que um ônibus cheio não é o cenário mais romântico, mas,
feliz ou infelizmente, é nele que acontece o que narro. Quatro ou seis cabeças
alinhadas obstruem a vista da frente. Os bancos altos contribuem, assim como as
pessoas em pé. Não vejo muito além de rostos cansados ou sonolentos ou as duas
coisas, indo ou vindo de ou para casa. Não sei. Estou de olhos fechados e, nesse
instante, o mundo se resume às minhas agruras, pensamentos e silêncios. Daqueles,
muitos afluem e vez ou outro me vem um ou outro que me faz lembrar você;
aquelas coisas todas, nossa vida, flashes, frames, momentos, frases soltas,
palavras que dissemos sem querer e querendo, nada mais do que eu e você em toda
a nossa infinidade. Mas depois... Depois me vem a incerteza de que você voltará
a fazer parte da minha vida e de que um dia teremos outros momentos para
eternizar. Então a boca se torna amarga e a tarde perde um tanto de sua formosura
por um instante ou dois.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Soneto #1

E na clausura voluntária
Fui tolhido da minha liberdade
Nesta sala vazia ordinária
Não posso exercer a minha vontade
Os versos, confesso, me chamam
Embora eu não os declame
Aventurados aqueles que amam
E não mancham a vida com sangue
Se eu pudesse um dia ir embora
Talvez eu fosse pra longe
E ouvisse essa voz que me chama
Mas não posso fazê-lo agora
Saudades dos tempos de ontem
Do calor de quem sei que me ama
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Camisa velha
Noite dessas eu tive um sonho.
Sim, um sonho, como outro qualquer. A diferença é que você estava nele. Mas não
foi um sonho feliz, não; foi um sonho triste. E foi triste por um único
detalhe: nele você ainda fazia parte da minha vida... Sim, eu sei, já faz muito
tempo e agora, provavelmente, você já nem se lembra de que eu existo. Ou, se
lembrar-se, já não tenho mais nenhuma importância – se é que cheguei a ter
importância um dia.
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