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quinta-feira, 27 de março de 2014

Tomates

— Você não vai mesmo fazer isso de novo?
— Não, não vou, eu prometo.

A conversa se estendia na cozinha há longos minutos. Aquele parecia ser um assunto insolúvel. Nada o fazia esquecer aquilo e nada que eu dizia o convencia. Finalmente, depois de muita discussão, muita argumentação e até algumas faíscas, o deus ex machina de toda aquela tragédia foi uma promessa.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sonho de uma meia-noite de verão

Nas férias de verão, meus pais sempre tinham a péssima ideia de viajar para a fazenda da tia Leontina. Eu nunca gostei de mato e essa ideia sempre me causava muito desgosto, mas eu não tinha escolha: era isso ou ficar em casa uma semana à base de miojo, pipoca e leite com bolacha — as únicas coisas que eu sei fazer.

Numa dessas idas, chegando lá, percebi que haviam contratado um porteiro novo. Vi assim que chegamos. Tia Leontina, como sempre, nos recebeu com a maior festa. Enchia-me de beijos e apertos na bochecha, que eu detestava. Já estava meio grandinho pr’aquilo, mas ela parecia não perceber. Aliás, eu já estava mais do que grandinho: eu já era maior de idade; nunca foi motivo pra que ela perdesse esse hábito.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Prova

Silêncio profundo. Ao redor, cabeças baixas e concentradas. À minha frente, sua mesa bagunçada. Meus olhos atentos. Lápis na boca, de propósito ou não. Dois metros e algumas circunstâncias nos separam. Sua cabeça, baixa como as demais, se ergue. Nossos olhares se cruzam. Sorrio mas você parece não entender, e me olha como se tentasse fazê-lo. Não sou clara o bastante, mas você é esperto. Ajeito o cabelo e volto os olhos ao papel, feito os demais. Tento disfarçar, sem sucesso. Contra minha vontade, meus olhos procuram os seus, que já procuravam os meus antes. Devoro-te, mas não decifra-me. Sorrimos de novo e sua cabeça se inclina para a direita como quem pergunta algo que não respondo. Você não percebe? Cruzo as pernas, sem esperança, mas sem pesar. Somos eternos porque você não me concretiza; se o fizesse, talvez nos perdêssemos. Jamais saberemos. Você volta a cuidar de seus papéis; eu, dos meus. Com o lápis que segurava na boca, escrevo seu nome na prova, depois o meu. Talvez, se eu for a última a sair da sala... Bem, nunca saberemos. É melhor ir agora. Boa noite, adeus.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Rebobinar

Ver, viver e ter tudo de novo e de trás pra frente.

O porta-retratos caído, partido, estilhaçado sobre o chão. Os rostos divididos por uma fissura no papel. Até que a celulose se refaz e a fissura se desfaz. Aos poucos, os fragmentos de vidro fino se aproximam e se encontram, também apagando qualquer vestígio de imperfeição que pudesse ficar para trás. A madeira encontra suas arestas e os vértices se unem, enquadrando a figura sob o vidro translúcido. Num movimento antigravitacional, o corpo desliza pelo vento e baila em direção à lisa superfície da penteadeira.

Então observo com olhos cansados a imagem de nós dois, e assim o faço pelo simples fazer, ou talvez para me lembrar de que gosto de me lembrar de você, embora essa lembrança me faça querer me afastar. Controverso, incerto, inseguro, inexplicável e encerrado.

Acabou. O que restam são estilhaços, e tudo o que se pode fazer é rebobinar e admirar por um instante, que deve ser breve, e depois varrer os cacos para debaixo do tapete, guardar os pedaços do porta-retratos e manter a fotografia guardada onde ninguém saiba, pois ela é a parte mais importante dessa cena (que se repete e se repete), até que um dia ela se desgaste e vá para aquela caixinha velha, onde ficam todas as outras fotos de menor valor.

Mas por enquanto deixe-a na segunda gaveta, por favor.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Providência divina

Sei que um ônibus cheio não é o cenário mais romântico, mas, feliz ou infelizmente, é nele que acontece o que narro. Quatro ou seis cabeças alinhadas obstruem a vista da frente. Os bancos altos contribuem, assim como as pessoas em pé. Não vejo muito além de rostos cansados ou sonolentos ou as duas coisas, indo ou vindo de ou para casa. Não sei. Estou de olhos fechados e, nesse instante, o mundo se resume às minhas agruras, pensamentos e silêncios. Daqueles, muitos afluem e vez ou outro me vem um ou outro que me faz lembrar você; aquelas coisas todas, nossa vida, flashes, frames, momentos, frases soltas, palavras que dissemos sem querer e querendo, nada mais do que eu e você em toda a nossa infinidade. Mas depois... Depois me vem a incerteza de que você voltará a fazer parte da minha vida e de que um dia teremos outros momentos para eternizar. Então a boca se torna amarga e a tarde perde um tanto de sua formosura por um instante ou dois.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Reclusão

Não é estar sozinho. Também não é solidão. Na verdade é, mas uma de um tipo diferente. Uma solidão ensimesmada, que independe do fator estar sozinho, ainda que seja aquele sozinho cercado de pessoas. É algo íntimo, introspectivo, como um embrião, que cresce mas não é possível dar à luz, pois ele é Seu demais para se externalizar. É como ter-se como único capaz de compartilhar a própria angústia, pois a felicidade desconhece esse tipo de confinamento. A solução talvez não exista, pelo menos sem a ajuda de um terceiro. Amigos, amo a todos, mas não quero aborrecê-los com o que não lhes diz respeito. Além do mais, de preconceitos já bastam os meus e de julgamentos, os do mundo. Quero compreensão, aceitação e um afago, se possível, mas de quem, senão de meus outros eus, eu poderia esperar tal comportamento? De ninguém, eu arriscaria. Talvez esteja aí a função da poesia, que não me agrada, mas também não me maltrata. É como uma companheira neutra, que aguarda junto comigo nesta sala de espera que é como água potável: incolor, insípida e inodora. Antes fosse amarga como a vida ou doce feito os sonhos que eu um dia tive, mas não é. Continuo a esperar, eu e a poesia, por um amanhã que não sei se um dia virá. Mas por isso estamos aqui, na sala de espera, que carrega esse nome por uma razão. Quando for minha vez e meu nome soar, caminharei rumo ao meu destino com passos firmes e queixo erguido, mas, enquanto isso não acontece, de pernas cruzadas permanecemos, eu e a poesia.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A máquina e o ancião


Tempo.

Queria ter tempo. Não que eu não tenha, ou que eu não tenha o bastante. Na verdade eu não tenho, de fato, mas é de outro tempo que eu estou falando. É um tempo nostálgico, bucólico, modesto, com um sabor diferente do tempo ocioso que muitos desejam, assim como eu. Mas não é esse, é o outro. Queria ter o tempo das pessoas que vejo partirem ou chegarem dentro de ônibus de viagem; queria ter o tempo das pessoas dentro dos aviões; queria ter o tempo do final da tarde, da volta pra casa depois do trabalho; o tempo que os casais de adolescentes que gozam da primeira paixão têm para andarem de mãos dadas pelas ruas arborizadas; queria ter o tempo da relva, da campina, da casinha no meio do campo infinito sob o céu cheio de nuvens fofas, brancas; o tempo de se sentar sob a árvore e fechar os olhos; o tempo de estar envolto pelo cobertor num dia frio e chuvoso; o tempo de comer pipoca e assistir a um filme no sofá da sala; de ir ao mercadinho da esquina caminhando, sem pressa; de pegar o violão e brincar de fazer música; de pegar o caderninho e brincar de fazer versos...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Namoradeira

Conheci meu amor quando ele passava pela janela. Sorrindo, ele ia todos os dias pelo mesmo caminho, passando em frente à porta da minha casa, do mesmo lado da calçada, devolvendo-me o olhar de fascínio que eu nele depositava ao vê-lo tão elegante.

Garantia-me um suspiro, infalivelmente, todos os dias. Dia que eu não o via, não suspirava, mas nunca deixei de me debruçar sobre a janela só pra vê-lo passar.