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segunda-feira, 11 de maio de 2015

O Bom Homem

Da veracidade dos fatos que aqui narrarei pouco se sabe, mas prometo tentar reproduzi-los tais quais me foram contados, há tempos imemoráveis, por alguém que agora também já não me lembro, mas de cuja honestidade ninguém jamais houve de duvidar. Você, não obstante, reserve-se o direito de não acreditar em uma palavra sequer do que digo, pois eu-eu-mesmo também encontrei resistência quando me juraram esta mesma verdade que lhe juro agora.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O mundo em meus olhos

Eu não saberia te explicar como vim parar aqui, assim como não saberia te dizer quando ou sob quais circunstâncias nasci. Sei apenas que existo e estou aqui, também não sei há quanto tempo. Acordei assim. Não tenho memórias da minha vida, nem sei se tenho vida. Não sei o que veio antes de hoje e acredito que amanhã este dia se repetirá, e depois de amanhã também, e para sempre, até a morte, se ela vier. Não sei se ela sabe o caminho pra cá, ou se ela sabe que há vida aqui, ou se há vida afinal. Moro onde talvez ela não me encontre, mas não fiz de propósito: estou aqui porque sim.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Caneta vermelha

Dentro da sala, ouvia-se apenas o barulho do relógio da parede ticando, segundo após segundo, infinitamente. O silêncio era total e absoluto, irrompível. Enquanto aquelas dezenas de alunos faziam suas provas concentradamente, Otto, ou Professor Buckley, corrigia outras dezenas de provas sobre sua mesa bagunçada. Aquela vida já não lhe agradava tanto assim. Não mais. Onde fora parar sua juventude?, ele pensava. Gastara todo seu tempo e sua energia estudando, especializando-se, até que, naquele momento, já chegando aos quarenta de idade, ele estivesse no degrau mais alto de sua vida acadêmica: Otto já não tinha mais para onde subir; poucos eram tão bons no que faziam quanto ele. Processamento de Imagens, matéria que ele ministrava na melhor universidade pública do estado. Mas Otto sentia que não era bom o bastante — não como professor — e que seus alunos sentiam o mesmo. Não considerava que a disciplina que ministrava fosse difícil: doutorara-se nela, afinal, mas nenhum de seus pupilos demonstrava grande interesse ao ouvi-lo falar, sempre de forma cadenciada, precisa, com uma voz profunda, quase sexy. Talvez aquele aluno da terceira cadeira se interessasse, julgando pelo olhar, mas só ele não era o bastante. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Paraíso negro

Ele conhecia uma. Eu, coitado de mim, mal sabia das coisas. Quando me sentei neste banco de praça, não supus que seria abatido novamente por essas memórias. Já faz tanto tempo que, às vezes, acho que me esqueci de tudo aquilo. Mas que tolice a minha. Eu não sei que jamais me esqueceria de Matias, mesmo que eu vivesse outros sessenta e seis anos? Velho idiota!

Na época em que o conheci, Matias estava no auge. E acho que foi amor à primeira vista, se é que isso existe, se é que amor existe. Desgraçado... Oh, vida desgraçada. Por que é que eu fui sair de casa hoje? Aliás, que dia é hoje? Já faz tanto tempo. Não sei se comprei meus remédios deste mês. Que falta faz a Marcela.