Dentro da sala, ouvia-se apenas o barulho do relógio da parede ticando, segundo após segundo, infinitamente. O silêncio era total e absoluto, irrompível. Enquanto aquelas dezenas de alunos faziam suas provas concentradamente, Otto, ou Professor Buckley, corrigia outras dezenas de provas sobre sua mesa bagunçada. Aquela vida já não lhe agradava tanto assim. Não mais. Onde fora parar sua juventude?, ele pensava. Gastara todo seu tempo e sua energia estudando, especializando-se, até que, naquele momento, já chegando aos quarenta de idade, ele estivesse no degrau mais alto de sua vida acadêmica: Otto já não tinha mais para onde subir; poucos eram tão bons no que faziam quanto ele. Processamento de Imagens, matéria que ele ministrava na melhor universidade pública do estado. Mas Otto sentia que não era bom o bastante — não como professor — e que seus alunos sentiam o mesmo. Não considerava que a disciplina que ministrava fosse difícil: doutorara-se nela, afinal, mas nenhum de seus pupilos demonstrava grande interesse ao ouvi-lo falar, sempre de forma cadenciada, precisa, com uma voz profunda, quase sexy. Talvez aquele aluno da terceira cadeira se interessasse, julgando pelo olhar, mas só ele não era o bastante.
sexta-feira, 4 de abril de 2014
quinta-feira, 27 de março de 2014
Tomates
— Você não vai mesmo fazer isso de novo?
— Não, não vou, eu prometo.
A conversa se estendia na cozinha há longos minutos. Aquele parecia ser um assunto insolúvel. Nada o fazia esquecer aquilo e nada que eu dizia o convencia. Finalmente, depois de muita discussão, muita argumentação e até algumas faíscas, o deus ex machina de toda aquela tragédia foi uma promessa.
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04:33
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
River
(Poema de Agnieszka Surygala)
"Standing by the river I wonder,
do I need a stone?
No...my heart is heavy enough.
It will drag me down for sure.
Standing by the river I smile,
will I miss it all?
No...I'll be glad to leave it behind,
and never come back.
Standing by the river I close my eyes.
One jump and I'm there.
No...someone jumped after me.
He will never be my friend.
Standing by the river I'm thinking,
will I jump again?
No...behind the closed doors
I have fallen in love with the razor"
do I need a stone?
No...my heart is heavy enough.
It will drag me down for sure.
Standing by the river I smile,
will I miss it all?
No...I'll be glad to leave it behind,
and never come back.
Standing by the river I close my eyes.
One jump and I'm there.
No...someone jumped after me.
He will never be my friend.
Standing by the river I'm thinking,
will I jump again?
No...behind the closed doors
I have fallen in love with the razor"
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Sonho de uma meia-noite de verão
Nas férias de verão, meus pais sempre tinham a péssima ideia
de viajar para a fazenda da tia Leontina. Eu nunca gostei de mato e essa ideia
sempre me causava muito desgosto, mas eu não tinha escolha: era isso ou ficar
em casa uma semana à base de miojo, pipoca e leite com bolacha — as únicas
coisas que eu sei fazer.
Numa dessas idas, chegando lá, percebi que haviam contratado
um porteiro novo. Vi assim que chegamos. Tia Leontina, como sempre, nos recebeu
com a maior festa. Enchia-me de beijos e apertos na bochecha, que eu detestava.
Já estava meio grandinho pr’aquilo, mas ela parecia não perceber. Aliás, eu já
estava mais do que grandinho: eu já era maior de idade; nunca foi motivo pra
que ela perdesse esse hábito.
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01:35
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sábado, 1 de fevereiro de 2014
Paraíso negro
Ele conhecia uma. Eu, coitado de mim, mal sabia das coisas. Quando
me sentei neste banco de praça, não supus que seria abatido novamente por essas
memórias. Já faz tanto tempo que, às vezes, acho que me esqueci de tudo aquilo.
Mas que tolice a minha. Eu não sei que jamais me esqueceria de Matias, mesmo
que eu vivesse outros sessenta e seis anos? Velho idiota!
Na época em que o conheci, Matias estava no auge. E acho que
foi amor à primeira vista, se é que isso existe, se é que amor existe.
Desgraçado... Oh, vida desgraçada. Por que é que eu fui sair de casa hoje?
Aliás, que dia é hoje? Já faz tanto tempo. Não sei se comprei meus remédios
deste mês. Que falta faz a Marcela.
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Natan
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22:21
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Prova
Silêncio profundo. Ao redor, cabeças baixas e concentradas. À minha frente, sua mesa bagunçada. Meus olhos atentos. Lápis na boca, de propósito ou não. Dois metros e algumas circunstâncias nos separam. Sua cabeça, baixa como as demais, se ergue. Nossos olhares se cruzam. Sorrio mas você parece não entender, e me olha como se tentasse fazê-lo. Não sou clara o bastante, mas você é esperto. Ajeito o cabelo e volto os olhos ao papel, feito os demais. Tento disfarçar, sem sucesso. Contra minha vontade, meus olhos procuram os seus, que já procuravam os meus antes. Devoro-te, mas não decifra-me. Sorrimos de novo e sua cabeça se inclina para a direita como quem pergunta algo que não respondo. Você não percebe? Cruzo as pernas, sem esperança, mas sem pesar. Somos eternos porque você não me concretiza; se o fizesse, talvez nos perdêssemos. Jamais saberemos. Você volta a cuidar de seus papéis; eu, dos meus. Com o lápis que segurava na boca, escrevo seu nome na prova, depois o meu. Talvez, se eu for a última a sair da sala... Bem, nunca saberemos. É melhor ir agora. Boa noite, adeus.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Um dia
Mais promessas vazias
Desculpas amarelas
Noites de chuva
e torres sem fim
(este poema é uma piada interna)
Desculpas amarelas
Noites de chuva
e torres sem fim
(este poema é uma piada interna)
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05:03
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
História de amor
— Nossa! Que legal! E onde vocês se conheceram?
— nif_fild02 336 231.
— nif_fild02 336 231.
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Natan
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23:40
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sábado, 23 de novembro de 2013
As músicas da minha vida
Bom dia.
São quase seis da manhã agora e eu vim aqui escrever este post porque não consigo dormir. Aliás, este post não é inédito; lembro de tê-lo feito há alguns anos, num blog que já não existe mais, e a ideia veio de uma querida amiga com da qual a vida me afastou sem que eu soubesse mais notícias: Josy. Saudades, Josy. Volte.
O título do post resume tudo. Vou falar das músicas que entitulo "da minha vida" pelo fato de me tocarem profundamente (ó o innuendo) por motivos que tentarei explicar e porque acho que a galera não pode passar por essa vida sem ouvi-las. Para me poupar de ter que elencar em ordem de preferência, vou preservar a ordem alfabética. Vem, gente.
sábado, 9 de novembro de 2013
Copo d'água
Há um copo com água
Pra mim, meio cheio
Pra você, meio vazio
Pra quem tem sede, com água
Pra quem o bebe, anseio
Pra quem não, sadio
Mas há um líquido
Incolor e insípido
Cristalino
Vital
Genuíno
Fulcral
Mas você jogou a água fora, guardou pra si o copo e de nada adiantou eu ter escrito versos rimados pra falar do que nele havia.
Guardou o copo.
O copo.
Guardou
O copo
Desculpa.
É pouco.
O copo
Sem água
Vazio
É oco.
Pra mim, meio cheio
Pra você, meio vazio
Pra quem tem sede, com água
Pra quem o bebe, anseio
Pra quem não, sadio
Mas há um líquido
Incolor e insípido
Cristalino
Vital
Genuíno
Fulcral
Mas você jogou a água fora, guardou pra si o copo e de nada adiantou eu ter escrito versos rimados pra falar do que nele havia.
Guardou o copo.
O copo.
Guardou
O copo
Desculpa.
É pouco.
O copo
Sem água
Vazio
É oco.
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02:15
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